
Criada pelo governo federal para regularizar a dívida dos clubes brasileiros com a União, a Timemania teve seu primeiro sorteio neste fim de semana. A nova loteria da Caixa Econômica Federal (CEF) vai beneficiar 80 clubes dos 26 estados brasileiros, mais os do Distrito Federal.
No Rio Grande do Norte, ABC e América foram os clubes contemplados, mas em situações distintas. Enquanto o Alvirubro tem um débito (tributário e previdenciário) que gira em torno dos R$ 800 mil, segundo dados do próprio clube, o Alvinegro alega não dever um tostão ao fisco.
“O ABC vai ser totalmente contemplado pela Timemania de imediato (ou seja, receber o dinheiro em caixa). O ABC não deve nada ao governo, inclusive, é o único clube, pelo menos que eu tenha conhecimento, que usa cartão corporativo para pagar suas despesas”, comemora Judas Tadeu, presidente alvinegro.
Ainda segundo o dirigente, a construção do estádio Frasqueirão e a otimização de todo o complexo da Vila Olímpica foram responsáveis pela confortável situação financeira do ABC, em relação a grande maioria dos clubes brasileiros. “Para negociarmos a construção do estádio com a construtora, o ABC foi obrigado a quitar todos os débitos fiscais para poder tirar as certidões negativas exigidas para a obra”, disse Judas, explicando o porquê do clube não ser mais devedor.
O ABC é uma das raras exceções entre os clubes de futebol do Brasil, cujas dívidas tributárias ultrapassam a casa do milhão. A Portuguesa de Desportos/SP, por exemplo, tem uma dívida calculada em R$ 145 milhões. Por questões éticas, a CEF não disponibiliza os valores exatos devidos pelos clubes da Timemania.
“A Timemania surgiu com o propósito de dar uma sustentação financeira e fiscal sólida aos clubes e ajudá-los à se transformarem em empresas, sem dívidas tributárias e podendo ter dinheiro, não para pagar dívidas com a União, mas para investir”, explicou Aldemir de Souza, gerente de Loterias e Atendimento da Caixa Econômica Federal em Natal.
América
A situação desfavorável em relação ao rival, no que diz respeito aos débitos fiscais, não desanima o diretor jurídico do América, Eduardo Rocha, que só ver benefícios com a loteria.
“Não tenha dúvidas que a Timemania será importante para os clubes. O América deve em torno de 800 mil reais à União e acredito que possamos quitar este débito bem mais rápido, agora, com essa loteria, já que o clube deve ser contemplado, segundo cálculos da própria Caixa Econômica, com cerca de 60 mil reais/mês neste primeiro momento”, informou Eduardo Rocha, que também pertence ao grupo de conselheiros que gerencia o departamento de futebol do América.
Por outro lado, a participação na Série A do Campeonato Brasileiro de 2007 ajudou a colocar o Alvirubro no primeiro grupo dos 80 clubes, que é formado justamente pelos 20 clubes que disputaram a primeira divisão da competição nacional do ano passado - critério utilizado pela CBF. Com isso, o América terá direito a um percentual bem maior do que o rival ABC na divisão do valor arrecadado com as apostas semanalmente.
“Os oitenta clubes foram divididos em quatro grupos de vinte, segundo critérios técnicos utilizados pela CBF. O ranking nacional foi apenas um desses critérios. A participação nas Séries A, B e C do ano passado também pesou, assim como as conquistas regionais e nacionais foram levadas em conta”, explicou Aldemir.
Os clubes do “G1” terão direito à 65% dos 22% arrecadados do rateio total. á o ABC está inserido no terceiro grupo (G3), que só terá direito à 8% dos 22%; as agremiações colocadas no “G3” têm direito à 25% e os do “G4” à 2%, respectivamente. Por exemplo: numa arrecadação de R$ 1 milhão, a Caixa Econômica Federal ‘repassaria’ aos clubes R$ 220 mil, que seria dividido entre os quatro grupos de acordo com o percentual de cada grupo. Nesta simulação, o América teria direito à R$ 7,15 mil, enquanto o ABC ficaria com apenas R$ 880.
Para inverter a situação, segundo Aldemir, o ABC precisa incentivar o seu torcedor à aportar cada vez mais. “O torcedor é o único que pode mudar a situação e fazer com que o seu clube de coração possa ganhar cada vez mais. Quanto mais aposta o torcedor fizer, mais o clube ganha”, disse Aldemir, explicando que o primeiro critério foi definido pela CBF. Mas, a partir do próximo ano, a redefinição dos clubes dentro de cada grupo vai depender exclusivamente do número de apostas feitas pelo torcedor. “Por isso, é importante o incentivo dos clubes”, completou.
Os clubes terão direito ao rateio de 22% de arrecadação, em troca da cessão do uso da imagem. O percentual será destinado à quitação dos débitos com a Receita Federal (pendências tributárias e previdenciárias), com o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. O prazo para renegociação das dívidas é de até 240 meses.
“Os clubes que não puderam tirar a certidão negativa por estar devendo quaisquer destes débitos, firmaram um contrato com a Caixa se comprometendo a pagar os impostos devidos, mesmo que sua cota não consiga atingir a parcela mensal acordada”, explicou Aldemir de Souza. O gerente da Caixa Econômica revela ainda que o não cumprimento do contrato exclui o clube da loteria.
“Há uma lista de ‘reserva’ com mais vinte clubes, só esperando uma oportunidade”, disse Aldemir, lamentando que o Potiguar de Mossoró (time de coração do gerente) está fora, inclusive, da lista dos 20 clubes ‘reservas’.
